Misericórdia de Lídia Jorge - oferta de Natal de 2024 do tio mais querido e próximo que tenho.
Desejo veementemente
continuar a trocar as nossas mensagens deliciosas por muitos anos. E, já agora,
aproveito o momento para lhe lançar um desafio: Porque não me envia os seus
pareceres, opiniões sobre tantos e tantos livros que eu sei que leu. Não
precisa de se preocupar com a forma. Se bem que eu sei que isso é impossível.
Mas, às vezes, em poucas palavras consegue-se dizer muito. Partilhe convosco e
com o mundo o que pensa sobre cada um dos livros que e leu. Só faz um de cada
vez e será publicado no Blogue da Biblioteca do nosso agrupamento, outrora a
sua casa. Ainda é recordado com muito carinho. Eu vou ouvindo e eu também sei.
Fico à espera.
Já pensei em não o
concluir, mas algo em mim espera que algo aconteça e me “obriga” a procurar
surpresa e o encanto.
É como nos filmes…por
vezes, estou a ver, não gosto, mas tenho sempre aquela esperança teimosa de que
o final traga a grande mensagem, aquele input que emociona e que faz pensar:
afinal parece que valeu a pena a espera. Nem sempre acontece…
457 páginas. Perdoe-me Lídia
Jorge pela falta de compreensão, mas creio que com 200 ou mais ou menos…conseguiria
transmitir a mesma mensagem.
As descrições são tão
minuciosas e semelhantes que se tornam aborrecidas. Será a minha alma que não
se compadece com alguma lentidão e urge-lhe rapidez.
Sim. É um facto que a
vida, por vezes, ou muitas vezes, é aborrecida, mas lá vem uns dias que a
tornam espantosamente bela.
A velhice, o fim da vida
é, naturalmente e na maioria dos casos, triste porque as nossas capacidades
físicas, intelectuais, emocionais também se vão baralhando e dão lugar a algo
triste e incompreensível. Mas, é assim. Nada ou pouco a fazer. Ou talvez algo
que a Ciência vá contribuindo e, claro o indispensável carinho humano que tanto
alivia e produz sorrisos maravilhosos, com olhares que se cruzam de forma entranhável.
E depois disso o dia valeu a pena.
E lá faço um intervalo na
leitura porque ainda não consegui interrompê-la de forma definitiva e colocar o
livro na estante do escritório e dizer quando o vejo: “aquele não consegui terminar!”
Já tenho outro à espera,
também oferta de alguém que adoro. Dizem que é bom. Na verdade, preciso de ler
algo bom, que me aporte novidade de ideias, pensamentos, abordagens, histórias.
E, de repente analiso,
mais uma vez, a capa do “Misericórdia”, a quantidade de páginas, os prémios
recebidos e volto a perguntar-me: Porque não gosto?
Perdoe-me a escritora e todos
os que o apreciaram, quem mo ofereceu com tanto carinho. Eu tentei, eu continuo
a tentar, mas ainda não consegui.
Talvez por conhecer bem
esta realidade, nada me surpreendeu e com isto não quero dizer que as estadias
em lares são necessariamente más, pelo contrário são uma necessidade das
sociedades atuais e existem excelentes exemplos que nos prestam este apoio de
retaguarda.
“Diga o que precisa, perguntou
a Diretora. Mas eu preciso de alguma coisa que a Noronha não me pode dar. Um
lugar seguro, inalcançável, inviolável, onde possa guardar o papel com a mensagem.
Só que não há gaveta, não há bolso, não há bolsa, não há travesseiro, nem
colchão, nem fundo de bainha, nem sola de sapato que só eu sozinha tenha acesso
e essa é a dificuldade de me encontra a viver no Hotel Paraíso. Exílio. Não há
nada que seja só meu, nem o meu corpo, nem o meu espírito.” Esta foi uma das
intervenções da personagem principal.
É uma grande verdade, difícil
de a gente se adaptar.
E, ainda bem que temos
quem nos acompanhe, nos dê um banho, nos ajude a saber onde guardamos a roupa
ou o papel da mensagem… sim, porque o mais provável é que nos esqueçamos e, ter
de procurar é demasiado cansativo!
Prometo fazer um esforço
para o terminar.
Tenho a certeza que muita
gente gostou do livro.
Helena Magalhães
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